Estante
Livros que me ajudaram a escutar quem vive entre dois países. Nenhum link aqui me dá comissão: sempre que possível aponto para a busca nos sebos, porque livro usado circula melhor do que livro parado.
Psicanálise, para começar
Quem nunca leu psicanálise costuma começar pelo lugar errado e desistir. Estes são os que eu daria a alguém curioso, na ordem em que eu daria.
Conferências introdutórias à psicanálise
Sigmund Freud
Freud explicando a própria invenção para uma plateia que não sabia nada do assunto. É a porta de entrada que ele mesmo construiu, e continua sendo a melhor.
Cartas a um jovem terapeuta
Contardo Calligaris
Curto, direto e sem jargão. Calligaris conta o que acontece de fato dentro de um consultório — útil tanto para quem pensa em se formar quanto para quem pensa em se deitar no divã.
O tempo e o cão
Maria Rita Kehl
Sobre a depressão como sintoma do nosso tempo, e não como defeito individual. Kehl escreve psicanálise como quem escreve ensaio, e isso torna o livro legível para qualquer pessoa.
Diário clínico
Sándor Ferenczi
Ferenczi anotando as próprias dúvidas enquanto atendia. É o avesso do analista seguro de si, e é dele que vem a ética de escuta que orienta o meu trabalho.
Tudo começa em casa
Donald Winnicott
Textos curtos sobre as coisas comuns: a família, a mãe suficientemente boa, o brincar. Winnicott fala de infância sem nunca soar como manual de criação de filhos.
Vocabulário da psicanálise
Laplanche e Pontalis
Não é livro de ler de ponta a ponta: é o dicionário a que se recorre quando um termo aparece e não se sabe o que quer dizer. Vale ter por perto.
Partir e chegar
Hello Brasil! Notas de um psicanalista europeu viajando ao Brasil
Contardo Calligaris
Um psicanalista italiano que veio morar aqui escreve sobre o país que o recebeu — e, sem anunciar, escreve sobre o que acontece com alguém que troca de mundo. É o livro que eu daria a quem emigrou e ainda não encontrou palavra para o que sente.
Reflexões sobre o exílio
Edward Said
Said define o exílio como uma fratura que não cicatriza por completo, e recusa qualquer versão romântica dela. Serve de antídoto ao discurso animado de que mudar de país é só uma aventura.
O mundo de ontem
Stefan Zweig
Memórias de um homem que perdeu o próprio mundo e as escreveu em Petrópolis, onde morreu em 1942. Leio como documento do que a gente carrega quando não pode voltar — e, sendo eu de Petrópolis, leio também com o endereço na cabeça.
Nós, os refugiados
Hannah Arendt
Um ensaio curto, de 1943, sobre a obrigação de parecer bem adaptado. Arendt descreve o esforço de quem chega e precisa ser otimista para não incomodar — e o preço psíquico dessa alegria compulsória.
O inquietante
Sigmund Freud
O texto de 1919 sobre o Unheimliche: o familiar que de repente se torna estranho. É o que descreve com mais precisão a sensação de andar pela casa nova sem que ela vire casa. Está nas Obras completas da Companhia das Letras, no volume dos textos de 1917 a 1920.
A língua em que se sofre
A Babel do inconsciente: língua materna e línguas estrangeiras na dimensão psicanalítica
Jacqueline Amati-Mehler, Simona Argentieri e Jorge Canestri
O livro sobre análise entre línguas. Os autores mostram o que acontece quando o paciente fala de si num idioma aprendido depois: alguma coisa fica protegida, intacta, fora de alcance. É denso e vale cada página.
Estrangeiros para nós mesmos
Julia Kristeva
Kristeva parte de uma tese incômoda: o estrangeiro que nos perturba na rua é o que não reconhecemos em nós. Para quem vive fora, funciona ao contrário e igual — o estranho que você virou é seu conhecido antigo.
Lost in Translation: A Life in a New Language
Eva Hoffman
A memória de uma menina polonesa levada ao Canadá aos treze anos, contada pela perda da língua. É o relato mais preciso que conheço sobre o que se perde quando o mundo muda de nome. Costuma ser mais fácil de achar em inglês.
Confusão de língua entre os adultos e a criança
Sándor Ferenczi
O texto de 1933 não trata de idiomas, e sim da língua da ternura e da língua da paixão — do desencontro entre o que a criança pede e o que o adulto responde. Guardo aqui pela ressonância, que é grande, e não pela sinonímia, que não existe.
Escrever para elaborar
Escrever
Marguerite Duras
Um livro curto sobre a solidão necessária para escrever. Duras não ensina método; descreve um estado. Serve a quem usa o caderno como lugar de pensar, não de desabafar.
O ano do pensamento mágico
Joan Didion
Didion escreve o próprio luto enquanto ele acontece, sem consolo e sem estilo de autoajuda. É o registro do que a perda faz com a razão de uma pessoa muito racional.
O tempo e o cão: a atualidade das depressões
Maria Rita Kehl
Kehl lê a depressão como sintoma de um tempo que não permite parar. Não fala de migração — e ainda assim explica bem a exaustão de quem precisa performar adaptação todos os dias.
Se algum desses livros disse alguma coisa a você, provavelmente temos assunto.